Apresentação do filme Ordem Moral, de Mário Barroso
por Marta Mendes
Queria agradecer o convite dos Professores José Ornelas e Maria João Vargas Moniz, para apresentar o primeiro filme do ciclo Cinema e Saúde Mental. É um prazer estar aqui para ver e conversar sobre este filme. Vou dizer umas breves palavras para contextualizar o filme que vamos ver e obra do Mário Barroso
Ordem Moral
O filme que vamos ver chama-se “Ordem Moral”, de 2020, do cineasta Mário Barroso. Passa-se em 1918 e conta-nos um episódio histórico em que uma senhora de 48 anos da alta sociedade lisboeta, Maria Adelaide Coelho da Cunha, herdeira legítima do Diário de Notícias, decidiu abandonar a família e fugir com o motorista da família, Manuel Claro, 22 anos mais novo do que ela, sendo a sua ação absolutamente contra a ordem moral da época e com consequências determinantes na sua vida. Maria Adelaide foi encontrada onze dias depois da sua fuga pelo marido e o filho, acompanhados de médicos e forças policiais e foi levada para o Hospital Conde de Ferreira, onde foi internada, diagnosticada de “degenerescência hereditária”, “loucura lúcida” e “neurastenia”.
O que é a ordem moral de uma época? É a ordem moral vigente, os valores por que se rege uma sociedade. Não são os valores de todas as pessoas, mas os valores dominantes, aqueles que o poder político decide que todos devem seguir. Este filme é muito importante neste sentido, porque nos faz refletir sobre esta questão da ordem moral e todas as épocas têm a sua ordem moral. Hoje, em 2025, também há uma ordem moral que nos é imposta. Claro que temos lutado e que temos alcançado direitos fundamentais. Mas como estamos a ver, se abrirmos os olhos para o momento presente que estamos a viver, esses direitos não são de maneira nenhuma, infelizmente, uma aquisição estável. Há direitos que adquirimos e que achamos que são seguros, mas a verdade é que podemos perdê-los muito mais facilmente do que pensávamos ou do que pensamos, se não continuarmos a lutar por eles. Quando olhamos para a História, quando a estudamos ou quando vemos um filme como este, percebemos que há coisas que se repetem, que permanecem. E as histórias, as ficções (toda a ficção: cinema, romances, teatro, séries de televisão, a ópera, as bandas-desenhadas), são modos de olhar e pensar sobre a nossa vida, sobre a nossa história e sobre a História da humanidade.
O filme que vamos ver apresenta o ponto de vista de uma mulher, o que naquela altura era raro. Estamos nos anos da Primeira República Portuguesa, vigente em Portugal depois da queda da Monarquia, entre a revolução republicana de 5 de outubro de 1910 e o golpe de 28 de maio de 1926, que deu origem à Ditadura Militar e mais tarde à Ditadura Nacional e ao Estado Novo. Foram portanto dezasseis anos muito intensos em termos políticos e culturais, de luta e aquisição de direitos que se reivindicaram, tendo alguns sido alcançados e outros não. Uma época de mudança muito importante e bastante atribulada politicamente. Quando o filme termina, em 1954, estamos em pleno Estado Novo, há outra vez um retrocesso para valores anteriores àquilo que a República tinha conseguido edificar, como o regresso à família patriarcal, por exemplo. Para além de um grande fosso entre classes sociais e géneros, havia ainda muitos direitos por reivindicar. A mulher era vista como um ser inferior, que não tinha o direito de publicar um livro sem a autorização do marido, não tinha o direito à propriedade, não tinha o direito de pedir o divórcio, nem de estudar. A ordem moral da época era absolutamente machista, os homens tinham o poder. A este panorama acrescenta-se um factor determinante para este filme: o nascimento da psiquiatria moderna, a partir do encontro entre as tendências do pensamento positivista e uma nova visão da doença mental, de fundamentação fisiológica, biológica e genética e a institucionalização da loucura. Deste assunto falará, depois do visionamento do filme, o Prof. José Ornelas.
Este filme apresenta-nos a história de uma mulher que ousou exercer o seu poder – a sua liberdade – e que sofreu as consequências disso. Nele colocam-se também questões que têm a ver com a relação entre a História – aquilo que aconteceu na realidade – e a ficção – ou seja – a liberdade de inventar, de criar, como modo de agir sobre o real e pensar sobre ele.
O diagnóstico de Maria Adelaide: loucura lúcida como forma de exclusão social e castigo
Maria Adelaide é a protagonista deste filme, filha do fundador do Diário de Notícias e sua legítima herdeira. Foi considerada louca por uma junta médica formada para avaliar o caso, composta por Júlio de Matos, António Egas Moniz e José Sobral Cid, os mais famosos alienistas portugueses de então que a diagnosticaram com “degenerescência hereditária”, “loucura lúcida” e “neurastenia” e interditando-a judicialmente, com a autorização do seu marido, de gerir os seus bens. Segundo Egas Moniz, personagem histórica do filme, que cita palavras do próprio Egas Moniz, “se o homem é uma inteligência servida por órgãos, a mulher é um útero servido por órgãos. A menopausa, a loucura lúcida, o furor uterino, derrubam todas as barreiras inibitórias, dão aso a maus afetos, inclinações perversas e anormalidades morais. E as mulheres ricas são as mais vulneráveis, por causa da leitura de romances inconvenientes, de espetáculos sugestivos ou de teatro”.
Mário Barroso
Mário Barroso é um realizador português que nasceu em 1947, portanto que terá hoje 77 anos. Fez o secundário em Lisboa e ainda passou pela Faculdade de Direito, mas foi para Bruxelas onde se inscreveu no INSAS (Institut National Supérieur des Arts du Spectacle et Techniques de Diffusion), e depois para Paris onde fez o curso de Realização e Fotografia no IDHEC (Institut des Hautes Études Cinématographiques) em 1976.
Começou a trabalhar como assistente de imagem em França, mas foi em Portugal que foi pela primeira vez diretor de fotografia, num filme “Kilas, o mau da fita” (1980, José Fonseca e Costa). O trabalho em cinema de Mário Barroso é já bastante longo, relevante e variado. Como diretor de fotografia trabalhou em filmes de produção portuguesa e francesa, com realizadores muito relevantes e singulares da história do cinema português como Manoel de Oliveira e João César Monteiro, que foram aqueles com quem trabalhou mais, mas também Raoul Ruiz e Jean-Claude Biette. Vive habitualmente em Paris é aí que desenvolve a maior parte da sua obra como diretor de fotografia, sobretudo em filmes para televisão. Apesar de nos anos 70/80 ter dirigido algumas curtas-metragens, só em 2000 realizou o seu primeiro filme para televisão – o telefilme “Aniversário”. Desde meados dos anos 80 tem desenvolvido um trabalho de monta na área da fotografia para cinema, nomeadamente em produções televisivas francesas, estendendo-se ainda a experiências como ator, em vários filmes, como neste que aqui vamos ver hoje, aliás, que aparece no final do filme.
Para contextualizar em traços largos o trabalho do Mário Barroso, penso que fará sentido aludir à distinção um pouco arcaica, talvez, mas ainda operativa, entre o cinema de autor e o cinema comercial. Podemos distinguir dois tipos de cinema, um cinema de autor – não comercial, e um cinema de entretenimento – comercial. O Mário Barroso está associado, desde o início do seu trabalho enquanto diretor de fotografia, àquilo a que se chama o cinema de autor – em Portugal, o Cinema Novo – entre os anos 70 e 80. Um cinema que surge nos anos 60, ligado ao contexto do cinema europeu, com uma marca de autor e que apresenta um modo de fazer filmes que resiste ao padrão comercialmente promovido e ao cinema industrial que se rege sobretudo por valores de mercado. No cinema de autor, que por princípio um cinema resiste à ideia do cinema como objeto de mercado e que se preocupa com o real, mas também com a forma como se representa esse real – questão política e social, a liberdade criativa, a marca do autor é acompanhada deste posicionamento político que se sente no campo propriamente formal, da fotografia, da estrutura narrativa, ou da montagem, da realização de um filme, no sentido em que a forma se torna de alguma forma visível, reflexiva. Se as estruturas narrativas do cinema de autor são mais ambíguas, menos lineares, mais abertas, se as suas personagens e histórias são menos estereotipadas do que as de um cinema comercial é porque elas são pensadas e problematizadas, em vez de serem dadas como fixas e predeterminadas.
O trabalho em cinema do Mário Barroso vem claramente deste tipo de cinema que é o cinema de autor, não comercial, ainda que, por outro lado, mesmo porque nos anos 90 o cinema fez uma aproximação ao realismo quotidiano e houve uma aproximação temática entre o cinema de matriz comercial e o de autor, ele aproximou-se também de um cinema mais comercial, nomeadamente das séries de televisão.
Mário Barroso realizou (e foi também o diretor de fotografia) de três longas metragens, contando com este filme que veremos hoje, todos com argumento de Carlos Saboga: “O Milagre segundo Salomé” (2004), “Um Amor de Perdição” (2008) e “Ordem Moral” (2020) – 3ª longa – depois também adaptada a série para TV. Tanto para “O Milagre de Salomé”, como para “Ordem Moral” foram realizadas versões de série de televisão.
Penso que podemos encontrar duas características chave nestes filmes do Mário Barroso: por um lado, ele trabalha sempre adaptações, episódios ou contextos, ora históricos, ora literários. Ou seja, parte de uma história (real ou inventada) que já existe e adapta-a. Adapta-a livremente – é o que se chama adaptação livre – dando-lhe um novo sentido, atualizando-o.
Uma das coisas que gostava de salientar na cinematografia do Mário Barroso é uma liberdade poética, um gosto do ficcional, mesmo tendo alguns dos seus filmes como pano de fundo situações históricas. Por outro lado, há em todos os seus filmes, mesmo que de maneiras diferentes, o trazer à luz de dogmas morais de que geralmente não se fala e a rutura com a ordem moral dominante.
Falando especificamente do estilo cinematográfico de “Ordem Moral”, há uma característica muito relevante, a sua intertextualidade, ou seja, a utilização de outras obras, dentro do filme, com as quais o filme dialoga permanentemente, explorando o tema e a forma do filme. Neste filme essas obras são sobretudo peças de teatro. Há, na verdade, uma forte presença do teatro neste filme – a ideia de papel social, no sentido que lhe deu Ervin Goffman, e a teatralização presente no modo como a personagem da Maria Adelaide está construída. Maria Adelaide representa duas peças de teatro no filme – “Miss Julie” (August Strindberg, 1888) e “Cartas Portuguesas”, uma obra literária do séc. XVII adaptada para o teatro por Júlio Dantas, que também é uma das personagens que aparece no filme. Ambas são peças que nos falam, também elas, sobre mulheres que romperam com a ordem moral. Mas Maria Adelaide parece representar também na sua vida real, por exemplo, quando numa cena do filme, repete a sua entrada na sala de jantar, como uma atriz que repete a sua cena, de modo a que a audiência (neste caso o marido e o filho) repare nela, ou ainda, noutra cena, quando se veste com o vestido da criada, fazendo-se de pobre, para visitar o seu motorista doente. Ou seja, o filme é atravessado por uma vontade de mudar de papel, de mudar de vida e, neste sentido, o teatro aparece como uma força revolucionária, de possível transformação política. Também formalmente – em alguns enquadramentos, por exemplo – se sente uma espécie de simulação teatral. Para além das referências ao teatro, a literatura está também presente no filme. Na cena final, Maria Adelaide e Manuel Claro estão no carro e Manuel entrega-lhe o romance que Maria Adelaide lhe pediu: “A Sibila”, de Agustina Bessa Luís. Maria Adelaide pega no livro e sugere que a Agustina é que deveria contar a história deles, coisa que fará, anos mais tarde, em “Doidos e Amantes” (2005), uma referência que percebemos ser fundamental na conceção da ideia deste filme.






