Apresentação do filme One Flew Over the Cuckoo’s Nest, de Milos Forman
por João Lopes

Os grandes filmes são um produto directo, ainda que não necessariamente explícito, da época em que surgiram. Transportam consigo as respectivas marcas e, ao mesmo tempo, através do tempo, vão consolidando uma identidade que transcende o contexto em que foram gerados. O exemplo da produção americana de 1975 é especialmente curioso. O grande fenómeno das bilheteiras foi “Tubarão”, de Steven Spielberg, tradicionalmente (e com toda a justificação) classificado como o primeiro “blockbuster” dos tempos modernos. Acontece que o segundo título do top dos mais populares foi um objecto bem diferente. A saber: “Voando sobre um Ninho de Cucos”, a adaptação do romance de Ken Kesey realizada por Milos Forman.

O simples reconhecimento das muitas diferenças entre os dois filmes tende a fazer-nos passar ao lado de uma componente simbólica que, no plano filosófico, os aproxima. Que há, de facto, de comum entre a tragédia de uma tradicional cidadezinha americana atacada por um tubarão e a saga de um condenado que, fingindo distúrbios psicológicos para tentar atenuar a sua pena, acaba por ser “integrado” numa instituição para doentes mentais?

Para lá das muitas nuances que a pergunta possa suscitar, importa reconhecer uma muito básica e sugestiva dualidade. A saber: a decomposição de qualquer noção redentora da ideia de Natureza (sim, com maiúscula!) instala uma crise que não é estranha, bem pelo contrário, ao súbito confronto com a complexidade do factor humano — e, nessa medida, com a desagregação das clássicas matrizes humanistas.

O tubarão é essa “coisa” monstruosa que contraria qualquer princípio idílico de convivência com os elementos naturais, virando do avesso um certo imaginário que, no cinema, tinha e continua a ter a sua imagem de marca no universo das produções Disney. Paralelamente, Randle McMurphy, a personagem interpretada por Jack Nicholson em “Voando sobre um Ninho de Cucos”, surge como uma entidade de vários rostos que mergulha nas atribulações da própria saúde mental. Trata-se de um dispositivo dramático em que Randle funciona como primeiro espectador da sua própria instabilidade e, nessa medida, da agitação de valores em que participa e, em grande parte, ajuda a desencadear.

Mesmo sem qualquer carácter exaustivo, vale a pena recordar que o reconhecimento dos problemas de saúde mental como algo mais do que um tópico exclusivamente “analítico” — porque, no limite, visceralmente social — vinha há alguns anos a contaminar a produção de Hollywood, desafiando o seu sistema clássico de narrativas. Sem qualquer preocupação exaustiva, lembremos apenas três exemplos: primeiro, “Bruscamente no Verão Passado” (1959), em que, tendo como base a peça de Tennessee Williams, Joseph L. Mankiewicz expõe as ambivalências da relação entre uma paciente (Elizabeth Taylor) e o seu analista (Montgomery Clift); depois, “Uma Criança à Espera” (1963), filme infelizmente muito esquecido ou, pelo menos, pouco visto, em que John Cassavetes, neste caso apenas como realizador, filma a admirável Judy Garland no centro de um drama passado no interior de uma instituição para crianças com perturbações emocionais; enfim, “Charly” (1968), de Ralph Nelson, com Cliff Robertson a viver os desequilíbrios de alguém que se transfigura, ou é transfigurado, em espelho paradoxal da própria ciência que tenta estudá-lo e compreendê-lo.

Nesta perspectiva, não será demais sublinhar que “Voando sobre um Ninho de Cucos” desempenhou um papel importante na discussão, não apenas da percepção e estudo das doenças mentais, mas também da sua inserção nas dinâmicas sociais das relações humanas. Será preciso recordar que as décadas de 1960/70 são atravessadas por muitos, e muito vivos, debates entre o espaço clássico da psiquiatria e as críticas formuladas no universo multifacetado da anti-psiquiatria? Sem esquecer, já agora, que R. D. Laing, nome fulcral desse universo, não mostrava grande simpatia pelo próprio rótulo de “anti-psiquiatria”.

Em boa verdade, creio que devemos alargar o foco de qualquer análise de “Voando sobre um Ninho de Cucos” para lá de um enquadramento apenas científico (o que, insisto, em nada diminui o valor histórico do filme de Forman nos debates de há meio século sobre a saúde mental). Isto porque estamos perante um objecto cuja riqueza temática e narrativa não pode ser dissociada de um contexto de vida e pensamento que, de acordo com a designação criada pelo escritor e professor Theodore Roszak, entrou na história das ideias e dos países (sobretudo dos EUA) como contracultura.

Em termos esquemáticos, das canções de Janis Joplin ou Bob Dylan até à poesia de Allen Ginsberg e à escrita de William S. Burroughs, passando por filmes como “Easy Rider” (Dennis Hopper, 1969 — também com Jack Nicholson num dos principais papéis), a contracultura foi muito mais do que um conjunto de produtos artísticos de “contestação”. Em grande parte gerada pelos movimentos contra a guerra do Vietname, contaminada pela euforia, e consequentes equívocos, do movimento hippie, a contracultura foi uma vaga gigante de energia social capaz de problematizar e discutir a própria pertença do cidadão a um determinado contexto social.

Que lugar é o nosso? Que lugar é o meu? Eis a interrogação que perpassa, não apenas no comportamento de Randle/Nicholson, mas na situação de qualquer personagem daquele asilo. Daí a ilegibilidade do título português, já que, na língua inglesa, “cuckoo” pode ser também uma forma de designar de forma irónica, por vezes cruel, alguém cujo estado mental está longe de ser equilibrado. O ninho de que se fala é, por isso, o cenário de uma família que já não existe a não ser como utopia perdida.